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PARTO IDEAL X PARTO IDEALIZADO



Primeiro criaram a internet, depois o Facebook, Instagram, Twitter... e depois o Whatsapp ( e seus grupos).Maravilhosas invenções, sem sombra de dúvida! Mas como tudo no Universo é feito de luz e sombra, as benditas tecnologias e ferramentas para aproximar pessoas do mundo todo, podem se tornar maléficas.


A questão da “humanização do parto”também tem a sua sombra (eu tenho, você tem, a Amma tem, o Ganhdi teve....).


Quando tive meu filho, quis começar a fotografar partos humanizados, justamente para mostrar ao mundo a beleza e a naturalidade de se parir! Para isso, me formei doula, e comecei a atuar como doula fotógrafa e não fotógrafa doula, e fiz formações em diversas terapias holísticas... e uma coisa foi levando a outra e me vi num caminho sem volta. Hoje me pergunto... será que devia ter me envolvido nisso???

Pois com as fotos lindas que nós- fotografas de partos- fazemos, e os vídeos lindos do youtube (mega editados com fundo musical emocionante), será que não idealizamos muita coisa na cabeça das mulheres? A questão é que apesar do vídeo e fotos serem românticos, o parto passa bem longe disso.


E com a criação dos grupos nos faces e whats da vida, essa idealização aumentou mais ainda. Então vejo hoje uma idealização extrema em caminho a um “parto natural, sem laceração, de preferencia de cócoras ou na água, cheio de emoção e alegrias” A QUALQUER CUSTO. E caso algo dê errado e não saia como o planejado, a equipe que estava atendendo essa mulher é crucificada e desumanizada.


Sim gente, sabemos que V.O. é regra no Brasil. E por isso a informação está aí, e para isso essa gente toda junta, nos grupos aqui e acolá, se tornam tão importantes: A CARÁTER DE INFORMAÇÃO. Mas não vamos negar que a medicina ajuda, previne e salva muitas vezes.

A Professora Fadynha – a doula mais antiga do Brasil (se você ainda não a conhece, vale a pena ler seus livros) diz ha muito tempo: o melhor parto para uma mulher é o parto que é possível ela ter.


Ha diferentes tipos de parto quanto há mulheres no mundo. Ë todo um processo de uma vida. A gente sabe que não é só físico, é emocional, é visceral, é psicológico e ainda e mais importante: é parte da escolha desse ser que está chegando. Faz parte do processo entender que não estamos no comando de nada, o bebê também tem as suas vontades e seu caminho escolhido por aqui. A gente deseja ter o “parto youtube”, todas desejamos, mas as coisas nem sempre acontecem como gostaríamos. E faz parte acolher com amorosidade e humildade o processo que temos que passar, por respeito a nós e aos bebês. Queremos o plano A, mas temos que nos preparar para o plano B e também o C. Já aprendi que idealizar muito algo é dar motivo para se frustrar. As pessoas precisam aprender a aceitar que há algo maior que nos rege, e que nos traz o aprendizado e evolução necessários para aquele momento. Cada lição e aprendizado são únicos, e quando as pessoas radicalizam, dizendo que ha apenas uma forma de fazer as coisas, perde-se uma grande oportunidade de aprender profundamente com o momento.


O parto em si pode não ter o desfecho desejado, mas o mais importante, que é o caminhar até esse momento, tenha humanidade e amorosidade por todos os envolvidos. Temos que tomar cuidado e fugir do dualismo certo e errado: ou sai pela vagina naturalmente ou é violência obstétrica, e sim pensar no que é mais adequado e necessário para que cada indivíduo evolua dentro do que desconhecemos das forças universais que nos regem.


Faz parte do processo de humanização, ajudar a mulher a acolher o seu processo, seja ele qual for. E não violentar mais ainda a parturiente, com palavras agressivas em relação ao que ela esta passando. A gente se indigna quando uma mulher sofre violência obstétrica, sofremos todas com essa mulher, e milhares de anos de sofrimento e subjugação que passamos vêm a tona, mas vamos atentar ao que estamos chamando de “violência obstétrica”. Uma cesárea bem recomendada, uma indução que salva e as vezes até mesmo um vácuo extrator ou fórceps podem ser utilizados dentro de um parto humanizado (única e exclusivamente quando bem indicados e usados para salvar vidas, que fique BEM claro), se essa mulher teve um bom pré natal, esta informada, com bons médicos e em um bom hospital. Uma transferência de um parto domiciliar para um hospital pode não ser violenta, e acontece, e não é culpa da equipe.


A gente luta para a mulher ser a protagonista das suas escolhas, mas quando “ajudamos” essa mulher a mega idealizar um parto youtube, não estamos colaborando para que ela se prepare para seu parto. Nem para que faça escolhas racionais na hora que seu trabalho de parto necessitar de uma intervenção. A obstetrícia é uma caixinha de surpresas, e estamos sujeitas a qualquer uma delas.


O que vejo hoje em dia é que sob as vestes de SORORIDADE e SOLIDARIEDADE, as pessoas expõem seu egocentrismo, quando uma mulher tem todo o seu plano de parto virado ao avesso e seguindo em uma direção bem diferente da planejada ( e idealizada pelas amigas e pessoas próximas que tentam se curar nos processos dos outros), causando nas redes sociais Brasil afora, sem saber do que se trata, sem estar presente, acusando profissionais e estabelecimentos sérios e comprometidos, atirando no pé e espalhando esse fogo no pé de todos realmente interessados com a humanização SÉRIA E VERDADEIRA, lutando por um ideal tão frágil, tão complexo e tão delicado que é a humanização do parto aqui no Brasil.


Vamos trabalhar na informação SIM, e acolher e ajudar, mas botar a mão na consciência e se limitar ao que cabe a cada um.


Mais amor, mais acolhimento, menos julgamento, menos discurso odioso.


Por Amanda Nunes




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